Crítica | Três Reis (1999)

O fim da Guerra do Golfo traz uma boa oportunidade para quatro soldados americanos em Três Reis. Eles conseguem encontrar um mapa em um lugar inusitado e aparentemente ele indica o caminho para um tesouro que o Iraque roubou do Kuwait. Os quatro terão que enganar os superiores e ainda despistar uma insistente repórter. Isso sem falar nos iraquianos que terão que enfrentar de alguma forma.

David O. Russell utiliza um ritmo mais acelerado e bastante energia para contar essa história. Uma boa trilha sonora e um humor trabalhado com qualidade também ajudam a deixar a experiência sempre divertida. Há também doses de violência, com direito a uma interessante aula sobre pneumotórax.

Obviamente o interesse inicial dos soldados americanos era o lucro, mas eles vão conhecer de perto a situação dos refugiados abandonados pelo governo e explorados por Sadam. É difícil testemunhar tantas injustiças e nada fazer.

Três Reis é um filme de guerra original que conta com uma direção segura, atuações acima da média e críticas relevantes.

Nota: 8

Nascido Para Matar (1987) | Crítica

Penúltimo trabalho da gloriosa carreira de Stanley Kubrick, Nascido Para Matar ficou um pouco na sombra de Platoon em 1987, mas com o tempo foi caindo cada vez mais nas graças do público e da crítica. Além de ser um trabalho estético primoroso recheado de sequências minuciosamente elaboradas, o filme ainda explora temas relevantes relacionados a Guerra do Vietnã e a natureza do ser humano.

Nascido Para Matar é divido em duas partes distintas. Os 45 minutos iniciais se passam em Parris Island, onde o Sargento Hartmann dedica toda a sua energia para transformar homens em máquinas de guerra. Ele é um tipo que se orgulha do fato de que Charles Whitman (responsável pela morte de 16 pessoas no Texas em 1966) e Lee Harvey Oswald (assassino de Kennedy) aprenderam a atirar com os fuzileiros navais. Com discursos em que os impropérios se proliferam em velocidade alucinante, ele faz com que seus comandados o respeitem e o temam.

O ator R. Lee Ermey foi inicialmente contratado como instrutor dos atores, mas mostrou na prática para Kubrick que ele seria o cara certo para o papel. Não há como visualizar outro ator interpretando o Sargento Hartmann. Quem também se destaca em termos de atuação é Vincent D’Onofrio interpretando Gomer Pyle, um soldado que come o pão que o diabo amassou e acaba pagando um preço muito caro.

A segunda parte se passa no Vietnã propriamente dito. Não existem grandiosas cenas de batalhas, mas os pequenos conflitos retratados comprovam que Kubrick tinha um excelente olho para a ação. Infelizmente, nota-se uma queda de ritmo nessa segunda parte.

Acompanhamos Joker trabalhando em um jornal do exército que está mais preocupado em fazer propaganda do que informar a verdade. Desde o início Joker é um personagem misterioso. Ele é capaz de usar um botão da paz e ter a frase “Nascido Para Matar” pintada no capacete. Ele explica para um oficial que isso se trata da dualidade do homem, algo bem retratado no ato final.

Nascido Para Matar é um deleite em termos técnicos e conta com uma primeira parte genial. A segunda também merece elogios por retratar alguns dos horrores do Vietnã e também o despreparo dos militares americanos naquele conflito. Kubrick usou essa guerra como pano de fundo para fazer um contundente comentário sobre a desumanização. O curioso é que, no caso de Joker, o tiro que ele dá no final é muito mais um ato de misericórdia do que qualquer outra coisa.

Nota: 9/10

Título original: Full Metal Jacket
Ano: 1987
Duração: 
1h 56min
Direção: Stanley Kubrick
Roteiro: Stanley Kubrick, Michael Herr
Fotografia: Douglas Milsome
Elenco: Matthew Modine, R. Lee Ermey, Vincent D’Onofrio, Adam Baldwin, Doran Harewood, Arliss Howard
IMDb

Preview: 1917

Tudo bem que ainda levará um tempo para a estreia, mas não há como não ficar empolgado com 1917, a mais nova produção do cineasta Sam Mendes (Soldado Anônimo, Beleza Americana).

A trama se passará durante a Terceira Batalha de Ypres (ou Batalha de Paschendale) na Primeira Guerra Mundial e mostrará dois soldados britânicos correndo contra o tempo para alertar um pelotão sobre uma emboscada.

Pelo trailer já podemos ver uma impressionante direção de arte. Parece que Sam Mendes vai conseguir transmitir todo o horror da guerra de trincheiras.

Em termos de elenco, há bons nomes: Richard Madden (Game of Thrones), Benedict Cumberbatch (Sherlock), Mark Strong (Kick Ass), Colin Firth (Direito de Amar), Dean-Charles Chapman (Game of Thrones).

E a fotografia está a cargo do grande Roger Deakins, dono de primorosos trabalhos como Blade Runner 2049 e Onde os Fracos Não tem Vez.

Como curiosidade, há um rumor de que o filme terá apenas um plano – ou como se tivesse um plano – do mesmo jeito que Birdman.

Em termos estéticos é praticamente impossível que 1917 não se destaque, mas fico na torcida para que ele entregue uma história digna dos melhores do gênero.

Pena que teremos que esperar até fevereiro de 2020 para conferir.

 

Crítica | Vá e Veja (1985)

Como um entusiasta de filmes de guerra acredito que tenha cometido um pecado ao demorar tanto tempo para assistir ao monumental Vá e Veja (Come and See). Exemplo do que o cinema russo pode oferecer de melhor, essa é uma daquelas experiências dolorosas e impossíveis de esquecer tão cedo.

O diretor Elem Klimov nos transporta para a Segunda Guerra na companhia do garoto Florya. Inicialmente, ele é só empolgação por finalmente fazer parte do conflito. Parece tudo uma aventura, quase uma fantasia. As coisas mudam rapidamente quando ele toma consciência de que a guerra é o horror na Terra. O letreiro do filme nos informa que mais de 600 aldeias da Bielorrusia foram dizimadas pelos nazistas e aqui temos uma recriação do que aconteceu em uma delas. É brutal.

Graças a uma filmagem realista nos sentimos realmente perturbados com o que vemos. Há quem diga que Vá e Veja pode ser considerado como um filme de terror e os motivos ficam claros da metade para o final. Aliás, o começo exige um pouco de paciência pelo ritmo mais arrastado e pela atmosfera um tanto onírica. Depois somos recompensados com algo que irá nos marcar profundamente.

Vá e Veja possui uma mensagem antibelicista extremamente poderosa. Não existe glorificação da violência ou heróis. Testemunhamos aqui o sofrimento do povo comum pelas mãos de seus semelhantes. É um horror visceral que deve ser eternizado para não ser repetido.

O título do filme foi tirado da bíblia, mais precisamente do livro do Apocalipse:

“E, havendo aberto o quarto selo, ouvi a voz do quarto animal, que dizia: Vem, e vê.

E olhei, e eis um cavalo amarelo, e o que estava assentado sobre ele tinha por nome Morte; e o inferno o seguia; e foi-lhes dado poder para matar a quarta parte da terra, com espada, e com fome, e com peste, e com as feras da terra”.

Nada mais apropriado.

Título original: Idi i smotri
Ano: 1985
Duração:
2h 22min
Direção: Elem Klimov
Roteiro: Ales Adamovich
Fotografia: Aleksey Rodionov
Elenco: Aleksey Kravchenko, Olga Mironova, Liubomiras Laucevicius, Tatyana Shestakova
IMDb

 

War Machine (2017) | Crítica

O diretor David Michôd tornou-se um queridinho dos cinéfilos graças a Reino Animal e The Rover. Nenhum dos dois me marcou muito, mas devo dizer que me surpreendi positivamente com este War Machine.

O filme teve uma recepção fria pela maioria do público e dos críticos, atingindo somente 48% de aprovação no Rotten Tomatoes. Talvez eu esteja mais tolerante do que o normal.

A maior reclamação dos críticos é sobre uma certa bagunça do roteiro e do tom de War Machine. Parece que David Michôd não conseguiu decidir se queria realizar uma sátira de guerra, um comentário político ou um drama de guerra. Eu diria que ele quis fazer tudo isso e obviamente não conseguiu o mesmo grau de sucesso em tudo.

Quanto a ação, pode esquecer. Elas se fazem presente durante uns 10 minutos no máximo e sem muito brilho, ainda que contenham uma pesada crítica a guerra. E no final das contas o objetivo aqui é criticar ferrenhamente a Guerra do Afeganistão e não necessariamente os soldados e oficiais que estavam lá.

Mesmo com essa irregularidade, fui capaz de extrair os pontos positivos dessa experiência e até de me empolgar com eles.

Brad Pitt e sua atuação diferenciada é uma das coisas que fazem tudo funcionar. Ele interpreta Glen McMahon, o general que supostamente irá trazer a vitória para os Estados Unidos. Esse personagem é levemente baseado no general Stanley McChrystal, que estava no comando na época. O filme é uma adaptação do livro The Operators, do já falecido Michael Hastings. Ele acompanhou o general e seus comandados e botou a boca no trombone com severas críticas.

Uma narração em off irônica e vários diálogos demonstram que essa guerra jamais poderia acabar bem. Há um soldado americano que questiona rispidamente o seu superior sobre o que diabos eles estão fazendo lá. Compreender esse conflito não é algo simples, mas o fato é que o general Glen está apenas cumprindo ordens. Ele é orgulhoso, excêntrico e parece ser uma pessoa boa.

War Machine começa acertando no estilo do humor e tem um ato final mais sério e dramático. Fica a impressão que tudo poderia ser melhor caso o diretor optasse por uma abordagem mais coesa. De qualquer forma, quando o filme acerta ele acerta em cheio.

Nota: 8

 

 

Crítica | Glória Feita de Sangue (1957)

Em 1956 o diretor Stanley Kubrick já havia mostrado potencial com O Grande Golpe, mas foi no ano seguinte com Glória Feita de Sangue que ele concebeu a sua primeira obra-prima e pediu passagem no rol dos grandes.

O filme é uma adaptação do livro Paths of Glory do autor Humphrey Cobb, que por sua vez foi baseado na história real de cinco soldados franceses fuzilados por amotinamento.

Kirk Douglas estava determinado a fazer parte do elenco de Glória Feita de Sangue e inclusive chegou a pressionar o estúdio. O ator só aceitaria participar de Vikings, os Conquistadores se o filme de Kubrick saísse do papel e com ele junto. Kirk Douglas sabia que estava diante de algo especial e não poderia perder essa oportunidade.

Ainda que não tenha sido um sucesso comercial, a obra tornou-se um clássico admirado por muitos críticos e cinéfilos. Fazer parte da lista dos 250 filmes mais bem avaliados do IMDb e possuir 95% de aprovação no Rotten Tomatoes são provas disso.

A trama de Glória Feita de Sangue foi uma oportunidade perfeita para Stanley Kubrick tecer uma ferrenha crítica à guerra e a militares que não honram suas posições. Aqui vemos três soldados enfrentando a corte marcial por supostamente terem cometido um ato de covardia durante a Primeira Guerra Mundial. Os oficiais sabiam que a missão era praticamente suicida e mesmo assim não hesitaram em botar a culpa do insucesso em soldados rasos. É a lei do mais forte. A hierarquia pesa muito.

O exército francês só tentou invadir a posição alemã pelo desejo de um oficial ser promovido. A indiferença dele em relação aos seus comandados é revoltante. E esse mesmo oficial é quem realmente pratica atos covardes e reprováveis.

Quanto mais estrelas estampadas no uniforme, menos confiável é o militar. Pelo menos, neste caso.

O idealista coronel Dax tentará de tudo para salvar a vida dos soldados acusados, mas talvez essa seja uma tarefa ainda mais difícil do que o ataque frustrado.

Glória Feita de Sangue investe em uma intensa e curta cena de batalha. Com travellings criativos e fluidos, Kubrick nos aproxima do que estamos vendo. A vida nas trincheiras é retratada com competência e verossimilhança. O próprio Winston Churchill disse que foi uma representação fiel. Não sou eu quem vai discordar.

De qualquer forma, fica evidente que o foco não é a ação e sim toda a sujeira envolvendo a politicagem dos militares de alta patente. Chegamos nos últimos minutos do filme compartilhando o sentimento de Dax de que não há qualquer esperança na humanidade. Com a cena final em que uma alemã canta para um grupo de soldados franceses inicialmente animalescos e depois emocionados, Kubrick faz com que repensemos essa triste sina. Por incrível que pareça, ainda é possível ter um pouco de fé no ser humano.

Nota: 10

Crítica | Riphagen (2016)

Dries Riphagen pode ser considerado como um dos seres mais desprezíveis que já habitaram o planeta Terra. Em uma Amsterdã ocupada pelos nazistas, o holandês Riphagen ganhava a confiança de judeus e prometia ajudá-los por uma razoável quantia. Agindo como um anti-Schindler, ele dedurava todos esses judeus para os nazistas, que iam enchendo cada vez mais os seus odiosos campos de concentração.

Essa história real poderia se transformar em um filme forte e de qualidade. Não foi o caso. Riphagen possui um diretor de mão pesada e inúmeras sequências pouco imaginativas. A dificuldade de encontrar um tom certo é evidente. Parece que a ideia era fazer disto aqui um thriller de guerra, mas há muito pouco de thriller e praticamente nada de guerra.

Para piorar, a recriação de época falha feio ao tentar nos transportar para a Holanda ocupada. A artificialidade impera em Riphagen, um filme realmente feito para a televisão. São mais de duas horas que demoram a passar graças a falta de competência dos envolvidos e também devido as reviravoltas confusas.

Chega a ser deprimente ver o personagem principal resolvendo tudo na base da porrada e investindo em um triângulo amoroso dos mais sem sal. Não há como negar que jogaram uma intrigante premissa na lata do lixo.

Nota: 4

 

 

Crítica | O Menino do Pijama Listrado (2008)

Adaptação do livro homônimo escrito por John Boyne, O Menino do Pijama Listrado retrata o holocausto a partir da perspectiva de um inocente garoto alemão. Essa abordagem diferente possibilitou uma boa carga de sensibilidade e um grande impacto no desfecho.

O ano é 1940. Bruno é um garoto de 8 anos que percorre as ruas de Berlim brincando com os seus amigos. A guerra é algo distante para ele, apesar de presenciar uma estranha movimentação de pessoas abandonando suas casas sob a mira de fuzis militares. O pai de Bruno é um oficial nazista que acaba de receber uma promoção e a família terá que se mudar para o interior.

A nova casa tem uma fachada neutra, um muro alto, arame farpado e um bom contingente de soldados indo para lá e para cá. Da janela de seu quarto Bruno observa algo que parece ser uma fazenda. Ele não consegue entender muito bem por que os trabalhadores usam pijamas listrados.

A ingenuidade de uma criança pode ser algo tocante.

Bruno tem um espírito explorador e logo ele invade essa área proibida e faz amizade com um garotinho judeu que está do outro lado da cerca. Há muita dor no olhar e nas palavras do pequeno Shmuel e não poderia ser diferente. Mesmo assim, eles passam a interagir e se divertir juntos, na medida do possível.

Um tutor explica para Bruno que os judeus são monstros que foram responsáveis pela derrocada alemã depois da primeira guerra. Conhecer de perto um judeu já é o suficiente para o garoto questionar essa doutrinação ideológica.

O Menino do Pijama Listrado poderia descambar para algo excessivamente melodramático, mas a trama se mantém sabiamente comedida em boa parte do tempo. As coisas caminham para um final brutal, inesperado e chocante. Conter as lágrimas não é uma tarefa fácil aqui.

São muitos os filmes que tem o holocausto como tema e é sempre bom quando alguém consegue desenvolvê-lo com originalidade. Não me entendam mal. O Holocausto foi uma das piores barbáries perpetradas pelo ser humano e é importante trazê-lo a tona no cinema de qualquer forma, mas melhor ainda quando isso é feito com um ar de novidade.

Nota: 8

Crítica | Apocalypse Now (1979)

Poucos filmes exigiram tanto de sua equipe de produção como Apocalypse Now. Houve discussões pesadas, desastres naturais, centenas de horas de filmagens, orçamento estourado e até um infarto.

O diretor Francis Ford Coppola operou um pequeno milagre para manter o projeto vivo e no final das contas entregou uma obra-prima não só do gênero de guerra, mas do cinema como um todo.

Foram oito indicações ao Oscar em 1980, globo de ouro de melhor filme, inúmeras outras premiações mundo afora e o reconhecimento eterno dos cinéfilos.

Utilizando como cenário a Guerra do Vietnã, Apocalypse Now mostra como a guerra pode afetar psicologicamente o ser humano e alterar sua personalidade por completo.

O capitão Willard recebe uma missão pouco usual. Ele deverá subir o rio, se infiltrar em uma região hostil e assassinar um oficial do exército americano que abandonou suas obrigações militares e se transformou em um tipo de deus para uma tribo local.

Coppola concebe aqui sequências esteticamente brilhantes que conseguem transmitir a insanidade de uma guerra. Apocalypse New é um verdadeiro épico. Tudo é em grande escala. Não há como esquecer a antológica cena dos helicópteros ao som da Cavalgada das Valquírias, o início com The Doors e muitas outras.

A crueldade da guerra é enfatizada em diversos momentos, principalmente quando vemos atitudes intempestivas de soldados americanos de dedos nervosos e os helicópteros destruindo tudo, inclusive uma escola cheia de crianças.

Difícil esquecer também as atuações de Martin Sheen, do monstro Marlon Brando e de Robert “Eu adoro o cheiro de Napalm pela manhã” Duvall.

Apocalypse Now é cinema no estado mais puro.

Nota: 10

F U B A R

O gênero guerra é um dos meus preferidos do cinema. Meu objetivo com este blog é torná-lo referência quando o assunto for guerra no cinema. Pretendo fazer reviews rápidos e também análises aprofundadas de filmes famosos, desconhecidos e de aqueles que ainda estão por vir.

Seriados e livros também poderão ser abordados por aqui.

Quanto ao título do blog, explico: a primeira vez que escutei a expressão FUBAR foi assistindo a O Resgate do Soldado Ryan. Trata-se de um acrônimo de Fucked Up Beyond All Recognition, ou seja, TUDO FODIDO. Uma gíria militar bastante usada.

Se assim como o tenente-coronel Kilgore você também adora um cheirinho de napalm pela manhã, seja bem vindo!