Crítica | Vá e Veja (1985)

Como um entusiasta de filmes de guerra acredito que tenha cometido um pecado ao demorar tanto tempo para assistir ao monumental Vá e Veja (Come and See). Exemplo do que o cinema russo pode oferecer de melhor, essa é uma daquelas experiências dolorosas e impossíveis de esquecer tão cedo.

O diretor Elem Klimov nos transporta para a Segunda Guerra na companhia do garoto Florya. Inicialmente, ele é só empolgação por finalmente fazer parte do conflito. Parece tudo uma aventura, quase uma fantasia. As coisas mudam rapidamente quando ele toma consciência de que a guerra é o horror na Terra. O letreiro do filme nos informa que mais de 600 aldeias da Bielorrusia foram dizimadas pelos nazistas e aqui temos uma recriação do que aconteceu em uma delas. É brutal.

Graças a uma filmagem realista nos sentimos realmente perturbados com o que vemos. Há quem diga que Vá e Veja pode ser considerado como um filme de terror e os motivos ficam claros da metade para o final. Aliás, o começo exige um pouco de paciência pelo ritmo mais arrastado e pela atmosfera um tanto onírica. Depois somos recompensados com algo que irá nos marcar profundamente.

Vá e Veja possui uma mensagem antibelicista extremamente poderosa. Não existe glorificação da violência ou heróis. Testemunhamos aqui o sofrimento do povo comum pelas mãos de seus semelhantes. É um horror visceral que deve ser eternizado para não ser repetido.

O título do filme foi tirado da bíblia, mais precisamente do livro do Apocalipse:

“E, havendo aberto o quarto selo, ouvi a voz do quarto animal, que dizia: Vem, e vê.

E olhei, e eis um cavalo amarelo, e o que estava assentado sobre ele tinha por nome Morte; e o inferno o seguia; e foi-lhes dado poder para matar a quarta parte da terra, com espada, e com fome, e com peste, e com as feras da terra”.

Nada mais apropriado.

Título original: Idi i smotri
Ano: 1985
Duração:
2h 22min
Direção: Elem Klimov
Roteiro: Ales Adamovich
Fotografia: Aleksey Rodionov
Elenco: Aleksey Kravchenko, Olga Mironova, Liubomiras Laucevicius, Tatyana Shestakova
IMDb

 

War Machine (2017) | Crítica

O diretor David Michôd tornou-se um queridinho dos cinéfilos graças a Reino Animal e The Rover. Nenhum dos dois me marcou muito, mas devo dizer que me surpreendi positivamente com este War Machine.

O filme teve uma recepção fria pela maioria do público e dos críticos, atingindo somente 48% de aprovação no Rotten Tomatoes. Talvez eu esteja mais tolerante do que o normal.

A maior reclamação dos críticos é sobre uma certa bagunça do roteiro e do tom de War Machine. Parece que David Michôd não conseguiu decidir se queria realizar uma sátira de guerra, um comentário político ou um drama de guerra. Eu diria que ele quis fazer tudo isso e obviamente não conseguiu o mesmo grau de sucesso em tudo.

Quanto a ação, pode esquecer. Elas se fazem presente durante uns 10 minutos no máximo e sem muito brilho, ainda que contenham uma pesada crítica a guerra. E no final das contas o objetivo aqui é criticar ferrenhamente a Guerra do Afeganistão e não necessariamente os soldados e oficiais que estavam lá.

Mesmo com essa irregularidade, fui capaz de extrair os pontos positivos dessa experiência e até de me empolgar com eles.

Brad Pitt e sua atuação diferenciada é uma das coisas que fazem tudo funcionar. Ele interpreta Glen McMahon, o general que supostamente irá trazer a vitória para os Estados Unidos. Esse personagem é levemente baseado no general Stanley McChrystal, que estava no comando na época. O filme é uma adaptação do livro The Operators, do já falecido Michael Hastings. Ele acompanhou o general e seus comandados e botou a boca no trombone com severas críticas.

Uma narração em off irônica e vários diálogos demonstram que essa guerra jamais poderia acabar bem. Há um soldado americano que questiona rispidamente o seu superior sobre o que diabos eles estão fazendo lá. Compreender esse conflito não é algo simples, mas o fato é que o general Glen está apenas cumprindo ordens. Ele é orgulhoso, excêntrico e parece ser uma pessoa boa.

War Machine começa acertando no estilo do humor e tem um ato final mais sério e dramático. Fica a impressão que tudo poderia ser melhor caso o diretor optasse por uma abordagem mais coesa. De qualquer forma, quando o filme acerta ele acerta em cheio.

Nota: 8